Tutto Passa
- wellington secon
- 9 de fev.
- 2 min de leitura

Fotografia: Ciro Pipoli
Mas se tudo passa, por que sentimos tanto com as coisas que passaram? Pensando na tatuagem do velho napolitano, centrada na caixa torácica, inscrita com palavras que tamponam aquilo que já passou, fico imaginando, diante das dores que nos sobrecarregam, as coisas que passaram na história, mas não na forma de sentir.
Embora outras coisas que passaram pareçam ter tido um certo desfecho, mesmo assim, com o passar do tempo, carregam seus significados como de um aprendizado e não como algo vago, semelhante ao apagar de uma borracha que dissolve as finas letras feitas por um lápis qualquer. Mas sim de escritas profundas, feitas e inscritas de afetos que transpassam as sensíveis falhas da pele e se inscrevem profundamente.
Inspirando-me na escrita de João Augusto Pompéia no seu livro “Na Presença do Sentido”, reflito sobre a importância do desfecho, não no sentido de fechar, mas de abrir. Entre o fechar e o abrir, existe aquilo que precisa ser sentido e não simplesmente esvaziado. Nas pressas de nos livrarmos das situações que nos causam sofrimento, acabamos deslegitimando essas vivências e negando a importância que tiveram em nossas vidas. Sentir é um passo fundamental para mudar a narrativa e dar um novo sentido àquilo que já foi vivido, permitindo, no eterno abrir e fechar das experiências, a possibilidade de novos começos, em vez de novas repetições. Com isso, no apagamento ou deslocamento do sentir, não sabemos diferenciar o “novo” do “de novo”.
Quantos são os sentimentos que queimam nas caldeiras da vida. Fortes e vivos, constroem histórias, laços e famílias, mas, com o tempo, transformam-se em outra coisa. Transformam-se em dores, ausências, saudades, recordações. Memórias. Entre a alquimia do que foi e do que se transforma, há um oceano que só cada um de nós pode significar. De uma margem a outra está o sentir, que constrói, como uma ponte, uma passagem ritualística para o novo que virá.